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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Economia

Planejamento e muito trabalho mantêm estudantes no exterior
 

Aquela história de que ter uma experiência fora do país e falar fluentemente outro idioma ajuda na vida profissional é realmente verdade. Mais do que isso, o intercâmbio é uma oportunidade de realizar-se também no âmbito pessoal. Conhecer outro povo, outra cultura e outra economia ajuda no crescimento do intercambista, mas viver em um ambiente diferente do habitual implica em importantes etapas de adaptação.
A estudante de Jornalismo Bruna Ostermann, 21 anos, admite ter enfrentado dificuldades logo na chegada a Londres, onde está desde o início de abril deste ano. “Pensei que nunca ia conseguir morar em um país onde as pessoas não falam português, mas depois a gente se acostuma, como tudo na vida”, afirma. A estudante gaúcha sabe da importância de aprender a língua inglesa, principalmente em função do seu curso de graduação, e por isso escolheu Londres como destino. Somado a isso, a vontade de assumir responsabilidades como morar sozinha e pagar suas contas, foi fator decisivo na hora de optar pelo intercâmbio. Mesmo com a opção de viajar para a pequena cidade de Dublin, na Irlanda, Ostermann escolheu o desafio da “cidade grande”.
Depois de comparar os prós e contras de cada lugar, vem a fase do planejamento, que deve ser feito com antecedência. Em 2007, o jovem administrador de empresas Filipe Jeffman, 22 anos, que trabalha na área de mercado financeiro, viajou para Sacramento, nos Estados Unidos, onde ficou durante cinco meses. Para a viagem, contou com ajuda de custo da família e, ainda assim, economizou durante um ano. “Se tivesse que pagar tudo por minha conta, precisaria de três ou quatro anos de economia”, destaca. Jeffman optou por um programa de intercâmbio de três meses, que envolvia curso de inglês, hospedagem e três refeições por dia. Após esse período, por mais dois meses, pagou um valor adicional para continuar com o sistema de “homestay” (hospedagem em casa de família) e três refeições diárias. No dia-a-dia, suas despesas envolviam programas de lazer. Mensalmente, o gasto médio para se manter no país era de US$600, o que hoje equivale a R$1074,00, considerando a atual cotação do dólar (ver box). Mesmo com dinheiro guardado, Jeffman procurou emprego durante o intercâmbio. “Tentei conseguir trabalho, mas em função do meu visto, que era de estudante, ficou complicado. E o fato de poder trabalhar só dois meses também atrapalhou”, conta.
Em Londres, a realidade da estudante Bruna Ostermann foi diferente. Em apenas uma semana em terras estrangeiras teve duas oportunidades de emprego. Ambas foram indicadas por brasileiros que já estavam estabilizados no país, o que mostra a importância de contar com a ajuda dos conterrâneos lá fora. Para Ostermann, é impossível se afastar dos brasileiros. “Aqui, eles são como se fossem tua família, principalmente porque o povo dos outros países tem um jeito diferente”, destaca. Nos primeiros dias, a estudante aproveitou para fazer turismo com uma amiga que já estava em Londres e, em um desses passeios, surgiu a primeira oportunidade. “Fomos em um café onde alguns conhecidos da minha amiga trabalham. Logo que fui apresentada a eles, soube da vaga de emprego nesse mesmo café. Alguns dias depois, voltei lá e conheci a gerente. Ela me pediu pra retornar no dia seguinte pra fazer um treinamento”, relata. Logo que chegou, Ostermann também conversou com outra amiga que morava em Londres e foi indicada para uma vaga em um museu da cidade. Ambos os empregos eram “part time”, ou seja, meio turno, já que a estudante frequenta a escola de inglês pela manhã e só pode trabalhar por dez ou vinte horas semanais.
Depois de ter realizado os testes, veio a surpresa: foi chamada para trabalhar no café e no museu. “Botei na balança as duas oportunidades: o museu pagava por hora, mas eu só poderia trabalhar vinte horas por semana. Já no café, apesar de ganhar menos por hora, eu ganharia gorjetas, as chamadas “tips”, e teria comida e bebida de graça, além de ter gostado mais do ambiente”, conta. Com o primeiro salário, conseguiu pagar o aluguel da casa onde mora com mais oito pessoas, e ainda fez compras pessoais. O salário mínimo em Londres é de £5,80 por hora, mas Ostermann ganha uma quantia menor, cinco libras por hora (equivalente a R$13) porque o local onde trabalha não desconta taxas e paga em dinheiro. Nesse valor, não estão incluídas as gorjetas. “Em um dia, ganhei 35 libras em tips, o que foi pouco, porque choveu muito. Em geral, dá pra ganhar até 60 libras”, conta.
O custo de vida em Londres é alto, mas ainda não refletiu na rotina da estudante gaúcha, que atribui isso ao fato de morar sozinha e não ter que sustentar uma família inteira.  “O supermercado aqui é muito barato, as roupas e eletrônicos também. Para viajar de uma cidade a outra e de um país pra outro o valor também é muito acessível. Até comprar um carro é barato, só é difícil mantê-lo. O transporte é bom porque podemos comprar passe por dia, semana ou mês e andar o quanto quiser”. Entre os serviços mais caros está o aluguel: Ostermann paga 75 libras por semana, mesmo dividindo quarto com mais duas pessoas. É importante ressaltar que, assim como no Brasil e em qualquer outro lugar do mundo, o preço do aluguel varia de acordo com a região. “O meu aluguel é um pouco mais caro do que o normal devido à localização. Levo vinte minutos de ônibus até o centro”, ressalta. Tudo isso está sendo mantido com salário e gorjetas. Uma parte desse dinheiro vai para as economias da viagem que Ostermann pretende fazer pela Europa, durante um mês e meio, quando o período do visto acabar.
Já nos Estados Unidos, de acordo com o administrador Filipe Jeffman, todos os serviços são mais caros. “Mandar lavar o carro não sai por menos de U$S 50 dólares. Aqui no Brasil, por R$15 tem boas opções de lavagem”, compara. Jeffman conseguiu um carro emprestado no final da sua viagem para conhecer outros lugares no país. Antes disso, não gastava muito em transportes, já que ia de bicicleta da casa onde morava até a escola de inglês. Para ele, a economia dos Estados Unidos é muito mais focada em serviços, enquanto o Brasil concentra-se em mercadoria. Lá a concorrência é mais forte e existem muito mais empresas. “No geral, os produtos são mais baratos porque são importados da China. Os carros possuem preços muito mais acessíveis pela questão dos impostos”, explica.
Ao final do intercâmbio, muitos jovens organizam viagens para conhecerem outros países ou outras regiões do mesmo país, mostrando que todos vêem na experiência uma oportunidade única. Além de retornarem ao seu país de origem com um idioma mais aperfeiçoado, os estudantes trazem uma grande bagagem profissional e pessoal. O mercado, por sua vez, valoriza a vivência acadêmica e profissional no exterior e leva em consideração aqueles que aceitaram o desafio e as responsabilidades da vida longe do conforto da família e da cultura com a qual estavam acostumados. Os jovens retornam mais preparados para enfrentar o mercado de trabalho e a vida. Por isso, é fundamental a realização de um planejamento pré-viagem e o conhecimento sobre a economia local, a fim de usufruir da melhor forma a experiência no exterior.
 

Cotação do dólar e da libra esterlina

EUA: US$1 = R$1,79
Londres: £1 = R$2,64

Dicionário do intercâmbio

“Part time” – meio turno
“Full time” – turno completo
“Homestay” – hospedagem em casa de família
“Pound” – libra esterlina

Intercâmbio não é só para classes média e alta
Hoje em dia, as agências de intercâmbio possuem vários tipos de programas, que podem ser parcelados. É só escolher o que melhor atende aos seus objetivos e necessidades.

Curiosidade: como os estrangeiros vêem o brasileiro e o Brasil
De acordo com a estudante Bruna Ostermann:
- Acham o povo brasileiro muito amigável e sorridente.
- Todos comentam sobre o Brasil ser penta campeão e falam sobre a Copa do Mundo de 2014, da qual o país vai ser sede.
- Muita gente fala sobre o carnaval.
- Adoram dizer que as mulheres do Brasil são lindas.
“Sempre que eu digo que sou brasileira as pessoas perguntam se sou de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Alguns pensam que São Paulo é a capital brasileira”.
A visão dos norte-americanos, de acordo com Filipe Jeffman:
“Eles acham que o Brasil é 90% do território sul-americano. E relacionam o país com futebol e carnaval”.


Por Eliandra Lopes e Tatiana Prisco Nassr

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